• Opinião do especialista

Cuidados Paliativos na UTI: uma congruência latente

  • Por Dr Ramon Teixeira Costa
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  • 27 de agosto, 12:33

 

                   Cuidados Paliativos na UTI: uma congruência latente

 

Dr Ramon Teixeira Costa

Certificação em área de atuação em Medicina Paliativa (AMB)

Especialista em Medicina Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB)

Mestrando pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Médico intensivista da UTI do ACCamargo Cancer Center

Médico intensivista da UTI do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

13/01/2018

Cuidados Paliativos são definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma abordagem sistematizada focada na melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares frente a uma doença ameaçadora à vida [1]. Este objetivo só é atingido através do tratamento centrado no paciente, estabelecimento de um plano de cuidados avançados, identificação e tratamento precoce dos sintomas físicos, demandas emocionais, espirituais e até mesmo psicossociais.

A unidade de terapia intensiva (UTI) é onde são travadas batalhas homéricas contra a morte. No entanto, a despeito de todos os avanços tecnológicos, as taxas de morbi-mortalidade seguem elevadas. Estima-se que cerca de um quinto da população faleça nestas unidades e 70% durante uma internação hospitalar. Além disso, boa parte dos gastos globais em saúde com este paciente ocorre em seu último mês de vida. Mesmo aqueles que recebem alta da UTI após melhora clínica descrevem queda importante da funcionalidade, dor, fadiga, além de sequelas psíquicas como depressão, ansiedade, insônia, labilidade emocional, mesmo após mais de um ano da internação na unidade. [2, 3, 4].

Uma questão intrigante é que quando perguntados em um momento anterior à doença, boa parte das pessoas não escolheriam a UTI ou mesmo o hospital como o local ideal para morrer. Um estudo que avaliou a satisfação de familiares de pacientes internados na UTI mostrou que enquanto estes valorizam a inclusão no processo de decisão, qualidade da informação fornecida, atendimento com compaixão e respeito, seus médicos estão focados no conhecimento técnico e no suporte tecnológico, uma discrepância de objetivos surpreendente [5].

Outro aspecto relevante é que grande parte destes doentes são idosos e falece de doenças crônicas, o que teoricamente facilitaria a atuação dos cuidados paliativos. Entretanto, inúmeras oportunidades de inserção são perdidas ao longo do tratamento, apesar de haver evidências de que quanto mais precoce a intervenção paliativa, melhores os resultados. Temel et al mostrou de forma contundente que os cuidados paliativos, quando introduzidos logo ao diagnóstico, podem mudar radicalmente o curso da patologia mesmo em doentes oncológicos, uma vez que o melhor controle de sintomas, suporte emocional e espiritual, assim como estratégias de comunicação aumentam a adesão do paciente ao tratamento repercutindo em aumento da sobrevida, com maior qualidade [6].

A maneira como os Cuidados Paliativos podem ser implementados em uma UTI segue como um grande desafio. Existem dois modelos principais: o modelo consultivo e o integrativo.

O modelo consultivo baseia-se em um grupo de Cuidados Paliativos especializado, composto por pessoas externas à equipe da UTI, e que são chamados para casos específicos.

Já no modelo integrativo, o papel da equipe de Cuidados Paliativos será capacitar a equipe assistencial da UTI em competências relacionadas como: controle de sintomas, capacidade de prognosticar e comunicação. O paciente será atendido pela própria equipe da unidade. É importante reiterar que não há um modelo perfeito e que este deverá adequar-se à realidade estrutural e demanda de cada serviço.  

Assim, percebe-se que apesar da inserção dos Cuidados Paliativos na UTI ainda ser lenta, gradativa e ocorrer através de diferentes modelos, parece evidente que o paciente crítico apresenta demanda considerável por este tipo de assistência, independente de seu diagnóstico ou prognóstico. A despeito de haver a falsa impressão de que Medicina Intensiva e Cuidados Paliativos são antagônicos, nota-se grande sinergismo entre ambos, seja integrando o plano de cuidados, controle de sintomas, assistência espiritual, psicossocial e emocional ao tratamento curativo, fazendo com que o paciente supere a patologia da forma menos traumática possível para ele e seus familiares ou conferindo dignidade a um paciente frente a morte inevitável [7].

 

Bibliografia:

  1. World Health Organization. WHO definition of palliative care (http://www.who.int/cancer/palliative/definition/en/).
  2. Choi J, Hoffman LA, Schulz R, et al: Self-reported physical symptoms in intensive care unit (ICU) survivors: Pilot exploration over four months post-ICU discharge. J Pain Symptom Manage 2014; 47:257–270 
  3. Cox CE, Docherty SL, Brandon DH, et al: Surviving critical illness: Acute respiratory distress syndrome as experienced by patients and their caregivers. Crit Care Med 2009; 37:2702–2708    
  4. Herridge MS, Tansey CM, Matté A, et al; Canadian Critical Care Trials Group: Functional disability 5 years after acute respiratory distress syndrome. N Engl J Med 2011; 364:1293–1304
  5. Heyland DK1, Rocker GMO'Callaghan CJDodek PMCook DJ. Dying in the ICU: perspectives of family members. Chest. 2003;124:392-7.
  6. Temel JS et al. Early Palliative Care for Patients with Metastatic Non–Small-Cell Lung Cancer. N Engl J Med 2010;363:733-42
  7. Cook D, Rocker G. Dying with Dignity in the Intensive Care Unit.N Engl J Med 2014;370:2506-14.