Influência familiar na anorexia nervosa

Jornal Brasileiro de Psiquiatria

Print version ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. vol.62 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0047-20852013000300007 

REVISÃO DE LITERATURA

Influência familiar na anorexia nervosa: em busca das melhores evidências científicas

Family influence on anorexia nervosa: in search of the best scientific evidence

Élide Dezoti ValdanhaI; Fabio Scorsolini-CominII; Rodrigo Sanches PeresIII;  Manoel Antônio dos SantosIV

IUniversidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP/FFCLRP), Programa de Pós-Graduação em Psicologia; USP/FFCLRP, Laboratório de Ensino e Pesquisa em Psicologia da Saúde (LEPPS). Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Hospital das Clínicas, Grupo de Assistência em Transtornos Alimentares (FMRP-USP-HC/GRATA) 
IIUniversidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Departamento de Psicologia; USP/FFCLRP, LEPPS 
IIIUniversidade Federal de Uberlândia (UFU), Programa de Pós-graduação do Instituto de Psicologia; USP/FFCLRP, LEPPS 
IVUSP/FFCLRP, Departamento de Psicologia e Programa de Pós-graduação em Psicologia; USP/FFCLRP, LEPPS; FMRP-USP-HC/GRATA

Endereço para correspondência

RESUMO

OBJETIVO: Analisar as evidências científicas sobre a influência do grupo familiar na sintomatologia da anorexia nervosa (AN). 
MÉTODOS: Revisão sistemática da literatura no período de 2000 a 2012, utilizando as bases PubMed, CINAHL, PsycINFO, Lilacs e os descritores: "transtornos da alimentação", "relações familiares", "relação entre gerações" e "relação mãe-filho". 
RESULTADOS: Com base nos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionadas e analisadas 20 publicações na íntegra. A maior parte dessas publicações focaliza mulheres diagnosticadas com transtornos alimentares (TA) ou com comportamento alimentar de risco, tem delineamento quantitativo e utiliza escalas padronizadas para coleta de dados. Predominou o Nível de Evidência 4, que corresponde a estudos de desenho não experimental, como pesquisa descritiva correlacional e qualitativa, ou estudos de caso. As evidências encontradas indicam que os relacionamentos familiares exercem impacto significativo tanto no desenvolvimento como na manutenção de sintomas de TA. Padrões relacionados à alimentação e ao alimento são transmitidos entre as gerações, bem como aspectos não elaborados do funcionamento psíquico materno. 
CONCLUSÕES: Os estudos sugerem a necessidade de ampliar o foco da atenção para incluir os familiares no tratamento, bem como incorporar os achados de transmissão psíquica intergeracional como subsídios norteadores do planejamento e qualificação do cuidado oferecido nos TA.

Palavras-chave: Transtornos da alimentação, relações familiares, relação entre gerações, relação mãe-filho.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To analyze scientific evidence about the influence of the family group on anorexia nervosa (AN) symptoms. 
METHODS: Systematic review of the literature published between 2000 and 2012, using the databases PubMed, CINAHL, PsycINFO, Lilacs and the descriptors: "eating disorders", "family relations", "intergenerational relations" and "mother-child relations". 
RESULTS: Based on the inclusion and exclusion criteria, 20 publications were selected and their full version was analyzed. Most of the papers focus on women diagnosed with eating disorders (ED) or risky eating behavior, have a quantitative design and use standardized scales for data collection. Evidence Level 4 was predominant, which corresponds to studies with a non-experimental design, like correlational and qualitative descriptive studies, or case studies. The evidences found indicate that family relations significantly affect both the development and maintenance of ED symptoms. Eating and food patterns are transmitted between generations, as well as non-elaborated aspects of maternal psychic functioning. 
CONCLUSIONS: Studies suggest the need for a broader care focus, so as to include family members in treatment, as well as to incorporate the findings related to intergenerational psychic transmission to guide the planning and qualification of the care offered in case of ED.

Keywords: Eating disorders, family relations, intergenerational relations, mother-child relations.

 

INTRODUÇÃO

A prática baseada em evidências (PBE) é um paradigma emergente, utilizado principalmente em situações que geram incertezas quanto aos aspectos de diagnóstico, prognóstico e manejo terapêutico1. A PBE apoia-se nos mesmos conceitos da Medicina baseada em evidências, com a diferença de que é empregada por diferentes profissionais e em contextos de saúde mais variados. Esse paradigma exige que o profissional desenvolva competência em avaliar e validar criticamente as publicações científicas em termos do nível de evidência (NE).

O NE de um estudo é uma classificação utilizada para ranquear a validade do diagnóstico, a conduta terapêutica e o prognóstico, e qualificar a informação descrita nas publicações científicas2. No contexto da saúde, a preocupação com o NE provém da PBE, interessada em classificar os estudos pautados em estratégias metodológicas rigorosas, que possam dar respaldo à prática profissional. A efetividade e a eficiência nas condutas exigem a integração da experiência do profissional com as melhores evidências extraídas, de preferência, das revisões sistemáticas3.

Para avaliar as evidências disponíveis, o profissional/pesquisador de saúde deve compreender e analisar a metodologia científica que embasa o estudo3. De acordo com a classificação da Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ), as evidências são categorizadas em seis níveis. O NE 1 corresponde à metanálise de múltiplos estudos controlados, ao passo que o NE 2 remete a estudos individuais com delineamento experimental. O NE 3 abrange pesquisas com desenho quase-experimental, como estudos sem randomização com grupo único pré e pós-teste, longitudinais ou caso-controle, e o NE 4 se refere a estudos não experimentais, como pesquisas descritivas correlacionais e qualitativas ou estudos de caso. Relatórios de casos ou avaliações de programas apresentam NE 5 e, por fim, o NE 6 se aplica a opi­niões de autoridades respeitadas na área ou de especialistas, incluindo informações não fundamentadas em pesquisas4.

O presente estudo visa familiarizar o profissional de saúde mental com os diferentes NE disponíveis no campo dos transtornos alimentares (TA), para que a tomada de decisão na prática assistencial seja fundamentada nas melhores evidências disponíveis. Os TA constituem quadros psiquiátricos de etiopatogenia multifatorial. Os tipos mais relevantes - anorexia nervosa (AN) e bulimia nervosa (BN) - têm como fatores desencadeadores e mantenedores: aspectos biológicos e genéticos, meio sociocultural, funcionamento familiar e personalidade do indivíduo5,6.

No que se refere às relações familiares, a associação entre AN e processos psíquicos pode ser constatada em diferentes gerações de uma mesma família7. Essa consideração evoca os postulados teóricos acerca da transmissão psíquica entre gerações, que entendem a família como um espaço psíquico comum, que possibilita os processos de construção, organização e transformação dos vínculos e dos conteúdos emocionais que são transmitidos de uma geração a outra8-11.

Na construção de uma nova família, ocorre o cruzamento das genealogias paterna e materna, que colocam em marcha tanto identificações como contraidentificações. Esse processo mobiliza forças intensas de amor e ódio, que se aglutinam em torno do que é aceito e também do que é denegado e escamoteado da consciência, não sendo possível controlar aquilo que se transmite12. Desse modo, tanto os aspectos adaptativos (vinculados à sobrevivência) como os disfuncionais (relacionados ao desencadeamento de psicopatologias, por exemplo) podem ser transmitidos, em nível inconsciente, de uma geração a outra do grupo familiar13.

A pergunta de pesquisa que norteou o presente estudo foi: existem evidências científicas, na literatura indexada, que corroboram as hipóteses acerca do nexo entre AN e processos psíquicos transmitidos entre as gerações de uma mesma família? Em caso afirmativo, como os padrões intergeracionais repercutem na sintomatologia?

O presente estudo focalizou a produção científica consagrada às relações familiares de pacientes com AN, considerando que esse tema vem adquirindo proeminência no cenário científico em virtude da valorização da dinâmica familiar disfuncional como fator crucial na compreensão etiológica do problema5,6,14. Assim, tem sido apontada a necessidade de intervenções que incluam a família e a questão da saúde mental do grupo familiar15. Porém, pouco se conhece sobre o status da evidência científica dos estudos que, dentro do campo mais abrangente das relações familiares, se dedicam a investigar os processos de transmissão psíquica intergeracional na AN. Partindo dessas considerações, o presente estudo teve por objetivo analisar as evidências científicas disponíveis sobre a influência do grupo familiar na sintomatologia da AN.

 

MÉTODOS

O presente estudo configura uma revisão sistemática da literatura. Para a busca dos artigos que constituíram ocorpus que deu suporte a essa revisão, foram selecionadas quatro bases de dados: PubMed, CINAHL, PsycINFO e Lilacs. Foram utilizadas as seguintes palavras-chave, extraídas dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e combinadas entre si: "transtornos da alimentação", "anorexia nervosa", "relações familiares", "relação entre gerações" e "relação mãe-filho". O termo "transmissão psíquica" não foi utilizado por não estar indexado no DeCS.

Foram incluídos artigos que preenchiam os seguintes critérios: resumo disponível nas bases de dados consultadas; publicação em língua portuguesa, inglesa ou espanhola; período de publicação de janeiro de 2000 a dezembro de 2012; com temáticas pertinentes à questão norteadora desta revisão. Foram incluídos artigos com vários tipos de delineamento, de modo a abarcar a abrangência do conhecimento produzido acerca da temática escolhida. Foram excluídos livros, capítulos de livro, resenhas, cartas, notícias, dissertações e teses, além de artigos de revisão da literatura e estudos com temática distante das relações familiares de pacientes com AN.

A busca nas bases de dados foi seccionada em quatro etapas. Na primeira, foi realizada uma busca geral nas bases de dados selecionadas, com as combinações dos descritores previamente escolhidos. Na segunda etapa, os resumos foram lidos e analisados segundo os critérios de inclusão e exclusão adotados. Já na terceira etapa foram excluídos os resumos repetidos. Na quarta e última etapa foi realizada a leitura dos artigos resultantes da terceira etapa, de modo que apenas aqueles que estavam diretamente relacionados à temática desta revisão foram selecionados. Estes foram lidos na íntegra e analisados em profundidade por dois avaliadores. Na apreciação do material obtido buscou-se evidenciar o número e o perfil dos estudos disponíveis, bem como avaliar suas características metodológicas, classificando-os em função do delineamento de pesquisa e NE científica de acordo com a categorização da AHRQ4.

 

RESULTADOS

A quantidade de artigos localizados, excluídos, incluídos e selecionados com base nas quatro etapas delineadas neste estudo pode ser visualizada na figura 1. A maioria dos artigos foi recuperada na base de dados PubMed (n = 11). Na base CINAHL foram recuperados seis artigos, na PsycINFO dois e na Lilacs apenas um. Assim, foram analisados na íntegra 20 artigos, os quais constituíram o corpus que deu suporte à presente revisão. A expressiva redução do número de estudos localizados para os efetivamente recuperados deu-se em função dos critérios de inclusão e exclusão adotados. A maior parte dos estudos foi excluída por tratar de modo tangencial a influência da família na sintomatologia da AN ou por apenas mencionar o grupo familiar como importante nos estudos sobre a AN, sem abordá-lo diretamente.

 

 

 

Nos artigos revisados predominou o NE 4 (13 artigos), que corresponde a estudos de desenho não experimental, como pesquisa descritiva correlacional e qualitativa, ou estudos de caso. Também foram encontrados sete artigos com NE 3, que abrange pesquisas com desenho quase-experimental, pré e pós-teste, ou grupo controle, ou recorte longitudinal. Nas tabelas 1 e 2 é possível examinar autoria, ano de publicação, país de origem, participantes, delineamento do estudo e principais resultados dos artigos com NE 3 e 4, respectivamente. Não foram encontrados artigos pertinentes à temática aqui analisada com NE 1 ou 2, que corresponderiam a delineamentos robustos, como estudos de metanálise ou experimentais controlados3,4.

De modo geral, as populações investigadas nos estudos abrangem mulheres com TA, principalmente AN, sobretudo adolescentes do sexo feminino e mulheres jovens, que já apresentaram o quadro clínico ou não. Além disso, também foram incluídos nos estudos familiares de pacientes com TA ou, mais especificamente, mães de crianças ou de jovens com TA, bem como constituindo grupos controle, mulheres sem TA ou familiares de pessoas não diagnosticadas com TA. Os artigos focalizam os vínculos e conflitos familiares e suas possíveis influências tanto no desenvolvimento como na manutenção dos TA; padrões de comportamento e hábitos alimentares presentes no grupo familiar; e conteúdos intergeracionais, ou seja, transmitidos a cada geração, relacionados aos TA.

A maioria dos artigos utilizou instrumentos padronizados (questionários e escalas) para a coleta dos dados. Os resultados evidenciaram a influência que os relacionamentos familiares podem exercer no desenvolvimento e manutenção dos sintomas. Uma parcela expressiva dos artigos sugere que o profissional de saúde deve aprofundar e ampliar o foco na família no planejamento das estratégias interventivas. No que concerne ao relacionamento mãe-filhos, o comportamento alimentar da mãe, suas convicções pessoais acerca do peso e padrões de beleza, bem como seus níveis de satisfação/insatisfação corporal, podem influenciar no surgimento de possíveis comportamentos associados a distúrbios na alimentação, assim como modular a gravidade dos sintomas do TA16-22.

 

DISCUSSÃO

A estratificação em NE é um procedimento que orienta a elaboração dos graus de recomendações de condutas médicas e reflete o nível de certeza e clareza das publicações, bem como seu poder de modificar e orientar a tomada de decisão final. Em relação às recomendações, o grau de recomendação A está ligado ao NE 1 e sugere forte recomendação na escolha, ou seja, o NE é excelente, o que permite recomendar rotineiramente a conduta. Nesse caso, os benefícios têm peso maior do que o dano, havendo boas evidências para apoiar a recomendação23.

Como não foram encontrados artigos com NE 1 nesta revisão sistemática, e a maior parte dos artigos apresenta NE 4, o grau de recomendação deles é C. Logo, são necessários estudos com maiores NE, capazes de fornecer contribuições mais conclusivas e subsídios mais consistentes para a prática profissional na área dos TA. O presente estudo, portanto, encontrou mínimas evidências satisfatórias na análise dos desfechos, o que aponta que os benefícios e riscos não justificam a generalização da recomendação, uma vez que há evidências insuficientes, contra ou a favor.

Por outro lado, deve-se considerar que foram encontrados também alguns estudos com NE 3, os quais recomendam ações que incluem a investigação da transmissão psíquica intergeracional, uma vez que pesquisas com tal temática mostram evidências importantes no desfecho, sugerindo que os benefícios superam os riscos. Assim, há também evidências razoáveis para apoiar a recomendação de estudos futuros, de modo que o profissional de saúde possa incorporá-las à sua prática. Tais resultados orientam o manejo clínico de outros pacientes em condições semelhantes.

Em relação ao conteúdo dos artigos revisados, três deles apontaram padrões de transmissão de comportamentos e sintomas em três gerações: avós, pais e filhos24-26. Esses artigos apresentavam NE 4, 3 e 3, respectivamente, e revelaram que a conduta dos avós pode influenciar na gravidade dos sintomas e nos riscos de hospitalização das netas. Todos os artigos restantes abordaram as relações familiares em apenas dois grupos: pais-filhos, mães-filhos, ou entre irmãos. Trata-se de uma limitação importante, na medida em que restringe a apenas duas gerações o alcance dos resultados da maioria dos artigos selecionados.

Dois dos artigos revisados avaliaram a influência dos irmãos na sintomatologia do TA, apresentando NE 4. Os artigos em questão revelam que os irmãos podem atuar como influências negativas quando tecem comentários provocativos a respeito do peso/aparência da irmã acometida, disparando ou intensificando conflitos familiares preexistentes21,27. Os irmãos também podem exercer influência positiva, pois muitas vezes são vistos como exemplo a ser seguido pela irmã diagnosticada com AN, uma vez que, na presença deles, elas passavam a perceber melhor a gravidade de seu quadro clínico. Os irmãos adultos auxiliam suas irmãs confrontando seus pensamentos afastados da realidade, expressando suas preocupações e opiniões, bem como encorajando-as a se tratarem27.

Um achado importante se refere ao fato de dois artigos, com NE 3 e 421,28, terem refutado a hipótese de que comentários negativos ou implicâncias com o peso de adolescentes do sexo feminino por parte das mães estariam associados ao desenvolvimento de TA. Porém, comentários críticos por parte dos pares do sexo masculino se revelaram associados a efeitos negativos nas adolescentes28, bem como comentários emitidos por familiares (pais e irmãos) do sexo masculino21. Não obstante, é preciso salientar que ambos os artigos em questão apresentam uma limitação importante, pois, em contraste com o que seria indicado em função de seus objetivos, prescindiram de diferentes informantes.

De qualquer forma, um desses artigos mostrou que, nas famílias em que o pai é quem provoca a filha com comentários pejorativos, é muito mais provável que haja um irmão provocador, evidenciando um padrão de transmissão intergeracional do comportamento paterno. O pai e o irmão mais velho, considerados modelos de interação "heterossocial", geram os principais resultados negativos para as garotas suscetíveis ao TA. O artigo que reporta tais achados sugere o desenvolvimento de programas preventivos em relação a esses comportamentos21. De acordo com o outro artigo no qual comentários negativos das mães não se revelaram associados ao desenvolvimento de TA, também despontaram como fatores de risco para garotas a exposição às mensagens da mídia, a tentativa da adolescente de se parecer com alguma figura ("celebridade") com alta visibilidade nos meios de comunicação de massa e o histórico materno de TA28.

No mesmo sentido, quatro artigos buscaram avaliar os comentários (críticas) de familiares em relação ao peso e/ou aparência das adolescentes. Os resultados mostram que pessoas, sobretudo mulheres, que são alvo frequente de comentários pejorativos sobre seu peso por parte de suas mães, têm maior probabilidade de desenvolver sintomas de TA e se mostram mais insatisfeitas com sua autoimagem17-19,29. Os NE dos artigos em questão foram 4, 3, 3 e 4, respectivamente. Contudo, é preciso salientar que apenas dois deles17,18 in­cluíram entre os participantes díades mãe-filha, o que pode ser apontado como uma limitação.

Apenas três estudos avaliaram a influência de comportamentos e comentários dos pais, e não apenas das mães, nos filhos21,28,30, e apresentaram NE 4, 3 e 4, respectivamente. Os resultados foram positivos para influência apenas em um dos artigos, o qual aponta que comentários paternos sobre o peso/aparência da filha são mais prejudiciais do que comentários vindos das mães21. Vale reforçar, entretanto, que, como já mencionado, o artigo em questão prescindiu de diferentes informantes.

Outros artigos revelam que mães insatisfeitas com sua autoimagem corporal (por apresentarem sobrepeso, desejo de emagrecer, distorção da imagem do corpo), e/ou com sintomas na esfera do comportamento alimentar (restrição ou descontrole) têm filhas mais insatisfeitas com seus próprios corpos, o que aumenta as chances de desenvolvimento de TA16,17,20,31. Os artigos em questão adotaram delineamento quantitativo, envolveram a aplicação de questionários padronizados e contaram com amplas amostras, o que deve ser apontado como um aspecto positivo. Todos eles apresentam NE 4. Os resultados obtidos, de modo geral, evidenciam que a gravidade da sintomatologia da mãe tem influência direta na gravidade dos sintomas da filha17. É possível perceber que a insatisfação da mãe com sua autoimagem pode ter intenso impacto em seus filhos, porém não foram encontrados estudos que buscaram investigar especificamente as percepções das causas atribuídas pelos participantes (mães e filhos) a esse fenômeno de transmissão.

Outros dois artigos, também com NE 4, avaliaram a proposta de grupos preventivos, cujo objetivo era evitar que mães diagnosticadas com TA transmitissem aos filhos suas dificuldades em relação à alimentação e ao corpo. As mães mostraram muitas dificuldades em comprar e preparar os alimentos. Com a participação nos grupos, puderam refletir sobre as condutas que estavam tomando na educação dos filhos e reavaliaram as mensagens ambivalentes que lhes transmitiam acerca da alimentação32,33. A generalização de tais achados, contudo, deve ser realizada com cautela, pois ambos os estudos contaram com número reduzido de participantes.

Não foram encontrados artigos com propostas preventivas para o fenômeno de transmissão psíquica nas famílias em que não havia uma pessoa diagnosticada com TA. A insatisfação é delegada aos jovens e canalizada por meio de palavras ou atitudes ambivalentes em relação ao alimento. Parece haver uma lacuna no conhecimento científico, que apenas sugere o desenvolvimento de propostas preventivas com famílias de crianças e adolescentes, com intuito de reduzir a frequência desses comportamentos e a possibilidade de desenvolvimento de sintomas.

De acordo com quatro artigos, mães mais preocupadas com seu próprio peso e padrão de alimentação tentam influenciar suas filhas com relação ao peso e alimentação, induzindo-as a adotarem comportamentos de restrição alimentar18,21,30,33. Os NE apresentados por tais artigos são 4, 3, 4 e 4, respectivamente. Outros dois artigos, com NE 3, também apontam que a família deve fazer refeições conjuntas frequentes, o que pode ajudar os filhos (crianças e adolescentes) a desenvolverem atitudes e pensamentos mais saudáveis em relação à alimentação, além de ser um importante momento de convivência com a família26,34. Um desses artigos também elenca como fatores de risco relacionados ao desenvolvimento de TA ser integrante de família numerosa e conviver com os avós em casa. Este último fator pode estar relacionado a um estilo inadequado de alimentação dos avós direcionado para os netos, em alguns casos permissivos em demasia e, em outros, rígidos e inflexíveis26.

Ao avaliar se filhos (bebês) de mulheres diagnosticadas com TA têm dificuldades alimentares no início da vida, considerando os sintomas de TA da mãe, seus níveis de ansiedade e depressão, um artigo reportou que sintomas de TA ativos durante o período de gravidez e histórico prolongado do quadro materno psicopatológico aumentam o risco de problemas alimentares do bebê, podendo ocasionar baixo peso e outros problemas de desenvolvimento35. Tal artigo apresenta NE 3 e têm o mérito de se dedicar a um aspecto da temática em pauta que permanece pouco explorado pela literatura.

Dois artigos com delineamento qualitativo, ambos apresentando NE 4, encontraram que as dificuldades alimentares são transmitidas entre as gerações, perseverando um padrão de relação negativa com o alimento. Pais e mães tentaram, em vão, proteger seus filhos de suas dificuldades emocionais e mostraram preocupações em relação a não serem capazes de expressar seus sentimentos33,36. Nesse contexto relacional problemático são fomentados segredos familiares, especialmente relacionados aos sintomas alimentares da mãe, que são transmitidos aos filhos33.

Em suma, na presente revisão destacou-se o predomínio de artigos quantitativos, com pouca referência aos elementos de transmissão psíquica entre gerações. Os artigos que mais exploraram tais elementos apresentaram abordagem qualitativa justamente por tratarem de um conceito presente na clínica psicanalítica e que se desenvolve, predominantemente, em forma de estudos de casos. Desse modo, em que pese o fato de estudos qualitativos apresentarem apenas NE 4 de acordo com a classificação da AHRQ, é possível propor que talvez eles sejam capazes de fornecer subsídios particularmente profícuos para a discussão sobre o papel do grupo familiar no desenvolvimento da AN, tendo em vista a reconhecida importância dos modelos psicodinâmicos na explicação dos TA. Tal consideração pode ser incluída na agenda de novos estudos, que possam compreender de modo mais pormenorizado a participação da família no contexto do tratamento.

Vale destacar, ainda, que os artigos que constituíram o corpus que deu suporte a esta revisão indicam a importância da influência dos familiares na sintomatologia da AN. Ainda assim, somente um estudo apresentava uma proposta interventiva de prevenção de transmissão de comportamentos alimentares inadequados32. Os demais artigos apenas apontaram a necessidade de cuidados preventivos19-21,26,28,29,31,34, principalmente nas escolas (coibindo as práticas de bullying, por exemplo) e dentro do grupo familiar, mas a literatura científica encontrada ainda não acompanha tal demanda. Essa situação evidencia uma importante limitação dos artigos revisados no presente estudo, que é justamente não possibilitar a compreensão da transmissão psíquica como um modelo teórico exequível de ser instrumentalizado na terapêutica desses pacientes, a fim de permitir a abordagem dos elementos familiares relacionados à sintomatologia, ao desenvolvimento, tratamento e recuperação das pessoas acometidas pela AN.

CONCLUSÕES

Nesta revisão foram avaliadas, criticamente, as evidências científicas disponíveis sobre a influência do grupo familiar na sintomatologia da AN. Os resultados permitem destacar que os relacionamentos familiares exercem impacto significativo no desenvolvimento e manutenção dos sintomas de TA. Foram encontradas evidências de que padrões relacionados à alimentação e ao alimento são transmitidos entre as gerações, bem como aspectos não elaborados do funcionamento psíquico materno.

A classificação em NE facilita o entendimento da atual maturidade do conhecimento na área, ou seja, o grau de sua recomendação clínica. Nesta revisão foram encontradas mínimas evidências satisfatórias na análise dos desfechos, o que permite concluir que a relação risco-benefício não justifica a generalização da recomendação. Em que pese a insuficiência de evidências contra ou a favor, e a inexistência de estudos com delineamentos robustos, os achados dos estudos revisados devem ser levados em consideração, com a devida cautela, pelos profissionais da equipe multidisciplinar no momento de definirem estratégias de cuidado em saúde que incluam a família no plano de tratamento.

Essa inclusão de membros da família deve se dar não apenas considerando-os como fonte privilegiada de informações sobre a pessoa acometida pelo TA, mas como reconhecimento das implicações familiares no desenvolvimento e manutenção dos sintomas. Acredita-se que essas medidas possam favorecer melhor entendimento do manejo do esquema terapêutico e, consequentemente, estimular a adesão dos pacientes ao tratamento prescrito e à adoção de comportamentos protetores de saúde. Esses conhecimentos podem direcionar os profissionais da equipe multidisciplinar de saúde na tomada de decisões, em consonância com as necessidades de cada etapa do tratamento, considerando as repercussões familiares do TA.

Há necessidade de se desenvolverem novos estudos para que os programas de ação em saúde mental possam utilizar continuamente as melhores evidências disponíveis na realidade da prática clínica diária. Desse modo, será possível estruturar protocolos de condutas de maneira judiciosa. Os profissionais da área de saúde devem estar familiarizados com os NE e com os graus de recomendação das publicações científicas. Nesse contexto, investigar a influência familiar no cenário dos TA, especialmente na AN, favorece a sistematização do conhecimento necessário para subsidiar a prática em saúde mental. Ampliar e qualificar a produção de conhecimento nessa área pode contribuir para a identificação precoce dos sintomas nos serviços de saúde, bem como para o planejamento de possíveis ações de promoção da saúde.

 

CONTRIBUIÇÕES INDIVIDUAIS

Élide Dezoti Valdanha - Desenhou o estudo, realizou a coleta e análise dos artigos selecionados, bem como a redação e a formatação do manuscrito.

Fabio Scorsolini-Comin - Colaborou com a análise dos artigos selecionados e participou da revisão do manuscrito.

Rodrigo Sanches Peres - Colaborou com a análise dos artigos selecionados e participou da revisão do manuscrito.

Manoel Antônio dos Santos - Desenhou o estudo, orientou o desenvolvimento da pesquisa e colaborou com a análise dos artigos, redação, formatação e revisão do texto.

CONFLITOS DE INTERESSES

Declaramos que não existem conflitos de interesse (profissionais, financeiros e benefícios diretos ou indiretos) que possam influenciar os resultados da pesquisa.

Declaramos, ainda, que este estudo foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), que concedeu bolsa de estudos, em nível de mestrado, à primeira autora, sob a orientação do último autor, para realização da pesquisa que originou este artigo.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), pela concessão de bolsa de estudos, em nível de mestrado, à primeira autora, sob a orientação do último autor, para a realização do estudo que originou este artigo.

 

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  Endereço para correspondência: 
Élide Dezoti Valdanha 
Laboratório de Ensino e Pesquisa em Psicologia da Saúde 
Departamento de Psicologia 
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto 
Av. Bandeirantes, 3900, Monte Alegre 
14040-901 - Ribeirão Preto, SP, Brasil 
E-mail: elidevaldanha@usp.br

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