• Specialist opinion

Tabagismo e Doenças Cardiovasculares

  • By Dr. Pedro Veronese
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  • March 30, 09:38

Dr. Pedro Veronese

1. Médico especialista em clínica médica pela Santa Casa de Misericódia de São Paulo.

2. Cardiologista pelo Instituto do Coração - InCor HC-FMUSP.

3. Arritmologista clínico e eletrofisiologista pelo Instituto do Coração - InCor HC-FMUSP.

4. Especiliasta em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.      

5. Especialista em arritmologia clínica e eletrofisiologia pela Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas.

6. Cardiologista do Centro de Arritmias Cardíacas do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

 

A história do tabaco remete à inúmeras civilizações milenares espalhadas por todos os continentes. Até o final das décadas de setenta e oitenta do século XX, o cigarro era sinal de glamour e status, sendo imortalizado nas mãos de grandes estrelas de Hollywood como: Clark Gable e Bette Davis. Porém, neste mesmo período começaram a surgir os primeiros trabalhos científicos que correlacionavam o tabagismo às doenças cardiovasculares. Pesquisadores notaram que a incidência de doenças como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, doenças vasculares periféricas entre outras, eram muito mais comum na população de fumantes do que em não fumantes.

Atualmente, essa relação entre o tabaco e as doenças cardiovasculares é incontestável e de conhecimento da maioria da população, inclusive dos fumantes. Somente nos Estados Unidos, estima-se que 440 mil pessoas morrem por ano devido ao consumo de cigarros e este número passa de 5 milhões de pessoas quando se avalia o mundo todo. A conta, que engloba a população economicamente ativa que tem que parar de trabalhar devido as complicações do tabaco e os custos do tratamento das doenças relacionadas ao fumo, é de mais de 200 bilhões de dólares anuais.

Para tentar reverter esses números alarmantes várias iniciativas começaram a surgir na primeira década do século XXI. Houve restrições nas propagandas de cigarro na TV e nos pontos de vendas. Maior fiscalização em relação a proibição da venda para menores de idade. No Brasil, acompanhando uma tendência mundial, começaram a surgir, primeiro leis estaduais e posteriormente uma lei federal, que proibia o fumo em lugares públicos como aviões, restaurantes, casas noturnas, bares e etc. Tais medidas produziram efeitos importantíssimos na redução do número de fumantes em todo o mundo. Porém, na contra mão desta tendência, houve um aumento no consumo dos cigarros eletrônicos e narguiles. Essas modalidades, por utilizarem tabaco, apresentam os mesmos risco dos cigarros convencionais.

As doenças cardiovasculares são as principais causas de mortalidade no mundo e a doença de artéria coronária uma das suas principais vilãs. O uso do tabaco é o fator de risco prevenível mais importante para doença de artéria coronária e estima-se que até 30% das mortes associada a esta doença sejam relacionadas ao fumo.

As principais doenças cardiovasculares associadas ao cigarro são: doença de artéria coronária, hipertensão arterial sistêmica, doença arterial periférica e aneurisma de aorta.

As doença cardiovasculares são causada, em última análise, pela formação de placas ateroscleróticas ricas em gordura. Os mecanismos pelos quais o uso do tabaco aumenta a incidência das placas  ateroscleróticas é hoje melhor conhecido. A sua atuação é sistêmica e multifatorial levando: a disfunção endotelial, disfunção vasomotora, aumento na produção de radicais livres derivados do oxigênio, aumento nos níveis do colesterol ruim (LDL), redução nos níveis do bom colesterol (HDL), aumento da pressão arterial sistêmica, inflamação crônica e um desbalanço entre os fatores pró-coagulantes em detrimento aos fatores anticoagulantes no nosso organismo. Esse estado de inflamação crônica e a exacerbação dos fatores pró-coagulantes ajudam na instabilização da placa aterosclerótica, produzindo a sua ruptura e a formação de trombos.

Indivíduos que fumam aumentam suas probabilidades de terem doença de artéria coronária, que se caracteriza por: doença coronariana crônica e doença coronariana aguda (angina instável e infarto agudo do miocárdio), que ceifam milhares de vidas anualmente. Existem estudos que mostram uma clara correlação entre tabagismo e elevação dos níveis pressóricos, pois sabe-se que as substâncias presentes no cigarro levam a um enrijecimento dos vasos sanguíneos. Essas alterações ocorrem difusamente nos vasos sanguíneos produzindo também claudicação intermitente e aneurisma de aorta.

O risco cardiovascular se correlaciona com o grau de exposição ao tabaco. Quanto maior a exposição às substâncias tóxicas do cigarro maior o risco cardiovascular. Porém, não há níveis mínimos seguros para o uso dessas substâncias e o único objetivo realmente eficaz para a saúde é a cessação completa do vício.

Ex-tabagistas têm menor risco de apresentar doença de artéria coronária e infarto agudo do miocárdio em comparação aos fumantes ativos. O risco cardiovascular, após um ano do abandono do vício, cai pela metade. Se o paciente interromper o tabagismo após um infarto agudo do miocárdio, a chance de um reinfarto também diminui expressivamente. Após 5 anos de abstinência, o risco de eventos cardiovasculares se aproxima ao dos não fumantes.

O fumo passivo também é um grande problema de saúde pública e está associado ao aumento do risco de doença de artéria coronária e mortalidade cardiovascular. Com a lei antifumo, que entrou em vigor em alguns estados do país em 2009 e nacionalmente em 2011, estima-se que milhões de mortes foram evitadas com a restrição do cigarro em áreas públicas.

Atualmente existem várias ferramentas que podem auxiliar o tabagista a abandonar o vício. O reconhecimento dos malefícios do tabaco e a vontade de querer abandonar é sempre o primeiro passo. Após está etapa procure o seu médico que poderá oferecer várias dicas comportamentais, além de medicações como gomas de mascar, adesivos de nicotina e medicamentos que ajudam a reduzir a vontade de fumar (fissura) e os intensos sintomas de abstinência.

Concluindo, o cigarro tem efeitos deletérios em todo o sistema cardiovascular. O tabaco é um dos principais fatores de risco para se desenvolver doença de artéria coronária, acidente vascular cerebral, aneurisma de aorta e doença arterial periférica. A ação do cigarro no organismo é sistêmica levando a um processo crônico de inflamação e pró-coagulação. Tabagistas pesados tem um risco maior de eventos cardiovasculares, porém não há níveis seguros para o consumo da nicotina. A cessação do tabagismo reduz radicalmente o risco de doenças cardiovasculares, principalmente quando associado ao controle de outros fatores de riscos como: a hipertensão arterial sistêmica, diabetes melito, obesidade, sedentarismo e alimentação desregrada.

Bibliografia:

  1. Mainali P et al. Tobacco and Cardiovascular Health. Cardiovasc Toxicol (2015) 15: 107-116.
  2. Morris PB et al. Cardiovascular Effects of Exposure to Cigarette Smoke and Electronic Cigarettes: Clinical Perspectives From the Prevention of Cardiovascular Disease Section Leadership Council and Early Career Councils of the American College of Cardiology. J Am Coll Cardiol. 2015 Sep 22;66(12):1378-91.
  3. http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/links-de-interesse/317-tabagismo/9255-metodos-para-deixar-de-fumar